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24 junho 2014

BRAZIL. ARISTOCRACIA INTELECTUAL UERJ versus MARIA CLARA BUBNA!

Republicando do DCM. Notícia compartilhada no meu facebook.
OS BLOGS Marina da Silva, twitter e facebook REPUDIAM COM VEEMÊNCIA OS ATOS DO PROFESSOR(?) bernado santoro.
APOIO IRRESTRITO A ALUNA MARIA CLARA BUBNA E AO COLETIVO DE MULHERES DA UFRJ

SOBRE O SILÊNCIO OU MANIFESTO PELA VOZ
Maria Clara
Maria Clara

SOBRE O SILÊNCIO OU MANIFESTO PELA VOZ
Maria Clara Bubna*
"Por muitos dias, eu optei por permanecer calada. Talvez numa tentativa de parecer madura (como se o silêncio fosse reflexo de maturidade) ou evitando que mais feridas fossem abertas, eu escolhi, nesse último mês, por vivenciar o inferno em que fui colocada com declarações breves e abstratas e conversas pessoais cautelosas. Mas se tem uma coisa que eu descobri nesse mês é que a maior dor que poderiam me causar era o meu silenciamento, o meu apagamento por ser mulher, jovem, “elo fraco” de toda relação de poder. Eu decidi portanto recuperar minha voz. Esse texto é um apelo a não só o meu direito de resposta, mas o meu direito a existir e me manter de pé enquanto mulher.
Eu nunca vi necessidade de esconder meus posicionamentos. Seja sobre o meu feminismo ou minhas preferências políticas, sempre fui muito firme e verdadeira com o que acredito. Mantive sempre a consciência de que minha voz era importante e que, junto com muitas outras vozes, seriamos fortes. Exatamente por isso, nunca vi necessidade de me esconder. Decidi fazer Direito baseada nessa minha ideia de que a união de vozes e forças poderia mudar a quantidade brutal de situações hediondas que o sistema apresenta.
Dentro da Faculdade de Direito da UERJ, acabei encontrando um professor que possui postura claramente liberal. Ele também nunca fez questão de esconder suas preferências políticas, mesmo no exercício de sua função. Apesar de ser meu primeiro ano na faculdade, passei alguns muitos anos no colégio durante os ensinos fundamental e médio e tive professores militares, conservadores, cristãos ferrenhos. Embates aconteciam, mas nunca ninguém se sentiu ofendido ou depreciado pelas suas preferências ideológicas. O debate, quando feito de maneira saudável, pode sim ser enriquecedor. Para minha surpresa, isso não aconteceu no ambiente universitário.
Ouvindo Bernardo Santoro se referir aos médicos cubanos como “escravos cubanos”, a Marx como “velho barbudo do mal”; explicar o conceito de demanda dizendo que ele era um “exímio ordenhador pois produzia muito leitinho” (sic) e que o “nazismo era um movimento de esquerda”, decidi por me afastar das aulas e tentar acompanhar o conteúdo por livros, gravações, grupos de estudo… Já ciente do meu posicionamento político e percebendo minha ausência, o professor chegou a indagar algumas vezes, durante suas aulas: “onde está a aluna marxista?”
No dia 15 de maio deste ano, Bernardo postou em sua página do Facebook, de maneira pública, um post sobre o feminismo. Usando o argumento de que se tratava de uma “brincadeira”, o docente escarneceu da luta feminista e das mulheres de maneira grosseira e agressiva. A publicação alcançou muitas visualizações, inclusive de grupos e coletivos feministas que a consideraram particularmente grave, em se tratando de um professor, como foi o caso do Coletivo de Mulheres da UFRJ, universidade em que Bernardo também leciona.
A partir do episódio, o Coletivo de Mulheres da UFRJ escreveu uma nota de repúdio à publicação do professor, publicada no dia 27 de maio na página do próprio Coletivo, chegando rapidamente ao seu conhecimento.
Foi o estopim. Fazendo suposições, o professor começou a me acusar pela redação da nota de repúdio e a justificou como fruto de sua “relação conflituosa” comigo, se mostrando incapaz de perceber quão problemático é escarnecer, de maneira pública, de um movimento de luta como o feminismo.
Fui então ameaçada de processo. Primeiro com indiretas por comentários, onde meu nome não era citado. Alguns dias se passaram com uma tensão se formando, tanto no meio virtual quanto nos corredores da minha faculdade. Já se tornava difícil andar sem ser questionada sobre o assunto.
Veio então, dias depois, uma mensagem privada do próprio Bernardo. A mensagem me surpreendeu por não só contar com o aviso sobre o “processo criminal por difamação” que o professor abriria contra mim, mas por um pedido do mesmo para que nos encontrássemos na secretaria da faculdade para que eu me desligasse da minha turma, pois o professor não tinha interesse em continuar dando aula para alguém que processaria.
Nesse ponto, meu emocional já não era dos melhores. Já não conseguia me concentrar nas aulas, chorava com uma certa frequência quando pensava em ir pra faculdade e essa mensagem do professor serviu para me desestabilizar mais ainda. Procurei o Centro Acadêmico da minha faculdade com muitas dúvidas sobre como agir. Foi decidido então levar o assunto até o Conselho Departamental que aconteceria dali alguns dias.
No Conselho, mesmo com os repetidos informes de que não se tratava de um tribunal de exceção, Bernardo agiu como se fosse um julgamento. Preparou uma verdadeira defesa que foi lida de maneira teatral por mais de quarenta minutos. Conversas e posts privados meus foram expostos numa tentativa de deslegitimar minha postura. Publicações minhas sobre a militância feminista e textos sobre minhas preferências políticas foram lidos pelo professor, manipulando o conteúdo e me expondo de maneira covarde e cruel. Dizendo-se perseguido por mim, uma aluna do primeiro período, Bernardo esqueceu-se que dentro do vínculo aluno/professor há uma clara relação de poder onde o aluno é obviamente o elo mais fraco.
Eu, enquanto aluna, mulher, jovem, não possuo instrumentos para perseguir um professor.
O Conselho, por fim, decidiu pela abertura de uma sindicância para apurar a postura antipedagógica de Bernardo. Não aceitando a abertura da sindicância, o professor, durante o próprio Conselho, comunicou que iria se exonerar e deixou a sala.
Foi repetido incansavelmente que a questão para a abertura da sindicância não era ideológica, mas sim sobre a postura dele como docente. Bernardo, ao que parece, não entendeu.
No dia seguinte, saiu uma reportagem no jornal O Globo sobre a questão. O professor declara que eu sempre fui uma “influência negativa para a turma”. Alguns dias depois, a cereja do bolo: seu amigo pessoal, Rodrigo Constantino, publicou, em seu blog na Revista Veja, uma reportagem onde eu era completamente difamada e exposta sem nenhum aviso prévio sobre a citação do meu nome. A reportagem por si só já era deprimente, mas o que ela gerou foi ainda mais violento.
Comecei a receber mensagens ameaçadoras que passavam desde xingamentos como “vadia caluniadora” até ameaças de “estupro corretivo”. Meu e-mail pessoal foi hackeado e meu perfil do facebook suspenso.
A situação atual parece estável, mas só parece. Ontem, no meu novo perfil do facebook, recebi mais uma mensagem de um homem desconhecido dizendo que eu deveria ser estuprada. Não, eu não deveria. Nem eu nem nenhuma outra mulher do planeta deveria ser estuprada, seja lá qual for o contexto. Nada nesse mundo justifica um estupro ou serve de motivação para tal.
Decidi quebrar o silêncio, romper com essa postura conformista e empoderar minha voz. É preciso que as pessoas tenham noção da tensão social que vivemos onde as relações de opressão estão cada vez mais escancaradas e violentas.
Em todo esse desenrolar, eu me vi em muitos momentos me odiando. Me odiando por ser mulher, me odiando por um dia ter dado valor à minha voz. Me vi procurando esconderijos, me arrependendo de ter entrado na faculdade de Direito, de ter acreditado na minha força. Me detestei, senti asco de mim. Mas eu não sou assim. Eu sou mulher. Já nasci sentindo sobre mim o peso da opressão, do machismo, do medo frequente de ser violada e violentada. Eu sou forte, está na minha essência ter força. E é com essa força que eu escrevo esse texto.
Estejamos fortes e unidos. A situação não tende a ficar mais mansa ou fácil. Nós precisamos estar juntos. É essa união que vai criar rede de amor e uma barreira contra essas investidas violentas dos fascistas que nos cercam. Foi essa rede de amor e apoio que me manteve sã durante esse mês e é essa rede que vai nos manter vivos quando o sistema ruir. Porque esse sistema está, definitivamente, fadado ao fracasso.
Abrace e empodere sua voz." Grifos Marina da Silva.
Maria Clara Bubna
Rio de Janeiro, junho de 2014.
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*Maria Clara Bubna, 20 anos, é estudante do 1° período de Direito na UERJ e integra o Coletivo de Mulheres da sua Universidade. Ela era – até ele pedir exoneração – aluna do Professor Bernardo Santoro, autor de uma postagem de conteúdo debochado e pra lá de machista feita, publicamente, em seu facebook, e repudiado, recentemente, e com toda a razão, pelo Coletivos de Mulheres da UFRJ, outra Universidade na qual Bernardo leciona. Depois disso, Bubna diz que passou a ser perseguida pelo professor. Ele afirma o contrário, mesmo estando hierarquicamente, acima da aluna, em sua relação dento da Universidade, e atribui a autoria do repúdio à Bubna e seu Coletivo, embora a Nota de Repúdio tenha sido publicada por outro Coletivo Feminista, de outra Universidade, a UFRJ. A estudante ficou um tanto surpresa e assustada com o rumo que o assunto tomou e a repercussão que teve, mas resolveu quebrar seu silêncio e contar sua versão da história em seu depoimento intitulado “Sobre o Silêncio ou Manifesto pela Voz”, que reproduzo, na íntegra, logo abaixo.
“Parabéns” sqn, Professor Bernardo Santoro! O Senhor conseguiu ficar famoso como o machistinha mais comentado das redes sociais dos últimos dias! Melhor repensares o conteúdo das piadas que levas à público, uma vez que és pessoa pública e formador de opinião. Recomendo mais cautela. E parabéns, de verdade, a ti, Maria Clara Bubna, que optou por não ficar calada, apesar de, como tu mesma disseste no teu manifesto, seres “o elo mais fraco desta relação”, por seres aluna, por seres mulher, por seres ainda muito jovem.
Segue o Manifesto de Maria Clara Bubna:

18 junho 2014

BRAZIL: ECOFARSA E IRRESPONSABILIDADE AMBIENTAL

CAPITALISMO VERDE
www.google.com.br/images


Marina da Silva
De todas as fases históricas de acumulação capitalista, a atual, - conhecida como Acumulação Flexível - se dá amparada nas novas tecnologias de produção, economizadoras de trabalho vivo; novas formas de gerenciamento e de relações de trabalho; na evolução dos meios de transporte, comunicação, informatização e paradoxalmente tem como fundamento basilar a extração de mais valia absoluta, a expropriação e exploração da mão de obra de bilhões de indivíduos em todo o planeta.
www.google.com.br/images. "Deus fez o mundo, O RESTO É PRODUZIDO NA CHINA".Autor desconhecido.

A possibilidade de fragmentação do processo produtivo e sua dispersão geográfica geraram uma disputa por empresas permitindo a obtenção de matérias primas, isenções fiscais e outras benesses dos Estados competidores e mão-de-obra barata em contratos precários, driblando a legislação trabalhista, desregulamentando a parca proteção social, camuflando a relação de emprego, reavivando a escravidão. Esta acumulação torna-se ainda mais potente e ganha robustez com a sedução e alienação da farsa verde: um discurso ecologicamente correto, politicamente sustentável, responsavelmente social.
Mosaico a partir de www.google.com.br/images

Capitalismo verde, produção verde, produto verde, economia verde! Forjados pela consciência enviesada verde, os consumidores (antes, cidadãos e cidadãs) padecem do encantamento verde e não se dão conta que o discurso do desenvolvimento e negócios sustentáveis, cada vez mais se escora na exploração predatória e irresponsável dos recursos do planeta. Nunca se produziu tanto, nunca se usou tanto a mão-de-obra de baixa qualificação, nunca se usou tão avidamente os recursos naturais, nunca se consumiu tanto fomentando a obsolescência programada dos produtos.

www.google.com.br/images. Belo Horizonte. Serra do Curral. Décadas de degradação ambiental sustentam economicamente a MBR.

Um exemplo: Minas Gerais sustém o crescimento de 10% da economia capitalista chinesa (que vende ao mundo inteiro produtos 1,99 - leia-se, baixa qualidade, descartáveis, além da suspeita cancerígina), queimando toda a riqueza do cerrado nas inúmeras siderúrgicas, substituindo-o por gigantescas florestas homogêneas de eucalipto! 
Isto sem falar na depredação das montanhas como a belíssima serra do Espinhaço, cartão postal dos mineiros. Hoje se grita pela salvação do planeta, patrulham-se crianças ainda no útero das mães usando ecobags, roupas, sapatos, chinelos, bolsas, acessórios, bijuterias, móveis e tudo... de plástico; tanto de altas grifes como os genéricos, falsetas, pirateados!
www.google.com.br/images. A febre chinelos Havaianas, um produto de borracha criado para pobres e hoje vendido a peso de ouro!

Ao lado da falácia verde impera outra maior: o empreendedorismo individual, que pode ser traduzido no individualismo exacerbado, na alta competitividade e principalmente no desapego aos direitos trabalhistas, à proteção social do trabalho, conquistas históricas que envolveram muitas lutas e mortes ao longo de séculos! O empreendedorismo a la Eike Batista, o X-man, que em 1 ano - 2009 - triplicou seus 7.5 bilhões de dólares  e se transformou no 8º homem mais rico da galáxia é para predestinados, os eleitos do deus capital!
Para os mortais o jeito é ser inovador, criativo, sem apego a salário, jornada, local de trabalho e outros direitos sociais. Os indivíduos são comprimidos pelo espaço/tempo: o trabalhador vai onde o trabalho está, acompanhando o movimento de horizontalização das empresas. Correr risco sem nenhuma contrapartida e se responsabilizar pelo fracasso é o que se exige do trabalhador na atualidade.
www.google.com.br/images. Mini masterchef é a versão júnior do Masterchef, reality show australiano de 2010 exibido na Discovery Home & Health 2014.

 A exploração se dá tanto na apropriação da força física (cumprir metas, ser polivalente, multifacetado o mesmo que fazer a sua tarefa e de outros dez ou mais trabalhadores) como da capacidade intelectual dos indivíduos (capital intelectual). O absurdo virou show de TV: para que RH-recursos humanos se podemos recrutar e selecionar os melhores e colocá-los para competir ao vivo e a cores com transmissão 24 horas nas TV? Big Brother; O Aprendiz e 1 contra 100 de Roberto Justus; Ídolos, etc. O setor de RH, mais do que nunca, darwiniano, sai aos poucos das empresas e ocupa a telinha: atores, cantores, chefs de cozinha adultos e crianças, estilistas, jornalistas, dançarinos, modelos, prostituição masculina/feminina de luxo. Milhões de internautas disputaram “o melhor emprego do mundo”, um big salário para cuidar de uma ilha paradisíaca e  mesmo Steve Spielberg seleciona roteiristas em reality show.
Mosaico a partir de www.google.com.br/images No Brasil terceirização é o mesmo que precarização do mundo do trabalho.

Explode no mundo inteiro o trabalho precário quase sempre divorciado dos direitos trabalhistas (terceirizado, subcontratado, estagiário, cooperativas ilícitas, voluntarismo ideológico/religioso, trabalho parcial, temporário, pejotização, isto é, trabalhador transformado em empresa e na maioria das vezes envolvendo muita informalidade e mesmo ilegalidade, trabalho informal, empreendedorismo social, análogo a escravo (seja lá o que for que isto signifique), trabalho escravo.
E se tudo pode ser pior; a acumulação flexível não só apropria como se faz baluarte da ecofarsa: ampara-se no ecodesenvolvimento sustentável do capital verde que se expande sem o menor esforço e com altíssimos lucros, ora associando-se sob os auspícios dos governantes nas PPP’s (parceira público privada) ora criando novas empresas para tomar posse de uma riqueza até então inimaginável: o lixo!
RRR: reciclar, reutilizar, reduzir! É a economia verde que só no Brasil em 2005 gerou um faturamento de cerca de US$ 7 bilhões, 500 mil empregos de catadores, 50 mil funcionários da indústria recicladora. O Brasil está entre os 10 maiores recicladores de papel e papelão do mundo. Em 2005 o país foi pentacampeão em reciclagem de latinhas: 89% do descarte, 9.4 bilhões ao ano, 26 milhões de latinhas recicladas por dia! É pouco! Propalam.
O lixo vem sendo disputado no braço: de um lado catadores versus urubus, ratos, escorpiões e outros bichos; do outro, empresas que cada vez mais adotam o “compromisso empresarial para a reciclagem”. O principal feito histórico vem da “exploração inteligente do gás do lixo”, uma energia “limpa” que será vendida, no caso do aterro de Gramacho na cidade de Duque de Caxias/RJ à Reduc- refinaria Duque de Caxias da Petrobrás.
O lixo é luxo e lucro: papel, papelão, latas de aço, vidros, garrafas pet, latinhas de alumínio, tetra park, lâmpadas, monitores, pneus, lixo orgânico, gás do lixo, móveis, artefatos de decoração, etc, etc e tal e o escambal também! Em Gramacho, o maior lixão (aterro sanitário) da América do sul, cerca de 1300 catadores se pegam nos tapas com urubus, correndo o risco de doenças, de atropelamento pelos tratores e caminhões ou serem soterrados pelo lixo!
”Não é lixo é trabalho” proclama a mídia, a porta voz dos capitalistas verdes, “o novo conceito do lixo _ diz sem esconder sua euforia André Trigueiro, apresentador do “Cidade e Soluções”/GloboNews – deixa de ser problema e passa a ser insumo energético”. Empresas verdes recebem o brasão da responsabilidade social, compromisso ambiental e créditos...de carbono, papéis com valor de mercado para serem negociados com empresas não tão verdes, aliás, sujas! Reciclar é pura magia, uma alquimia que transforma toneladas de lixo das classes abastadas do país (ou comprado do exterior como os 64 containers de lixo inglês vendido a empresários brasileiros)  em ouro verde e diplominha de responsabilidade ambiental.
www.google.com.br/images. Se a Melissa criou o plastic paradise a rede Globo, apesar do fracasso, criou a novela a base de plástico: Meu pedacinho de plástico, ops, recicláveis, oooops, chão! Dá pra reciclar todo o cenário e principalmente figurino!

Para os catadores, o elo mais importante, o portador da mais valia, reciclagem é trabalho duro, pesado, sujo, insalubre, que lhes garante meramente a sobrevivência no dia a dia, uma cidadania às avessas, de lixo, que não lhes confere nenhum valor social e apenas os torna mais e mais invisíveis. O repórter André Trigueiro que conduz o programa e seus entrevistados transitam daqui para ali no aterro de Gramacho sem dar mostras de que, apesar de enxergarem muito bem,  vêem as centenas de homens, mulheres e urubus revirando mais de 7 milhões de toneladas de lixo que chegam diariamente no lixão de Gramacho!



16 junho 2014

DUPLICAÇÃO DA AVENIDA ANTÔNIO CARLOS: UMA HISTÓRIA SEM FIM!


AS VIAS ABERTAS DA ANTÔNIO CARLOS.
Marina da Silva.

Não é a primeira vez que a Avenida Antônio Carlos, que liga o centro de Belo Horizonte a Pampulha e zona Norte tem suas vias expostas aos homens e máquinas.
A exposição mais recente é de 2002/03 data do início da atual duplicação de 3.9km, que após cinco anos (e duas recapeadas) ainda se encontra na segunda etapa. Uma verdadeira empreitada que chega a superar até mesmo os Doze Trabalhos de Hércules!
Uma empreitada de primeira para empresas que no Brasil sempre fazem obras de quinta lançando mão de terceiras.
Além de fazer vista, a obra deu o que falar pelo trabalho de um artista! Preocupados com a ocupação irregular, os túneis foram  enfeitados com muito concreto e um obra no mínimo surrealista: um bode dragão com chifres e barbicha num gordo corpo de Buda deu serviço para vereadores exorcistas! A arte não só cumpriu o seu papel – espantar sem tetos e mendigos - como quase sacrificou a reeleição de Pimentel. Então...
Com mais uma tonelada de concreto abateu-se o monstro de vez e pôs fim a saga televisiva. Prestígio igual nem o capeta do Vilarinho, outra lenda daqui.
Em 2008 a obra que era pavê, ou seja, só pra olhar, começou a ser consumida deixando a vista buracos, calombos e em muitos pontos um craquelê! Recapear! Foi a solução para uma lâmina de asfalto tão fina de fazer inveja a uma gilete. A segunda etapa começou quando Aécio, o governador, sentindo o desânimo de Serra (o líder nas pesquisas para presidente) com o fortalecimento de Dilma Roussef , resolveu se lançar candidato a presidência da república. Da noite para o dia, quase meados de 2009 choveu homens e máquinas na pista pondo abaixo – do hospital Belo Horizonte à praça dos peixes ali ao lado da rodoviária, casas velhas, prédios antigos, barracos e galpões. O trecho virou um campo de guerra e quase nada das antigas construções ficou de pé: botecos copos sujos, puteiros, casa de exorcismo e orações, igrejas evangélicas, jogo do bicho, galpão de obras sociais, o antigo cinema,  o posto policial, o Leguedê das roupas velhas!
Por um triz salvou-se o Hospital Belo Horizonte, o hospital Municipal Odilon Behrens, a antiga escola Municipal, o Mercado, a Polícia Civil e o lendário conjunto habitacional IAPI.
Limpeza geral e saneamento urbano acabou por deixar ao desabrigo dezenas de indivíduos que viviam por ali: mendigos, moradores de rua, os sem teto, os muitos filhos do narcotráfico   e sua cracolândia.
Uma pobreza e miséria imensa, incomensurável estão agora na superfície, escorrendo pelas artérias e veias abertas da nova via, testando e reinventando novos abrigos aqui ou ali, deixando exposto em carne via um descaso e descompromisso social que se escondia nos muitos quilômetros da avenida.
Hoje estão a olhos vistos, toda a miséria e indignidade em que vivem dezenas de pessoas que sobreviviam camuflados e escondidos nos lotes vazios, prédios velhos e construções abandonadas da Antônio Carlos. Um horizonte não tão belo da Belo Horizonte, uma das cidades mais importantes do país, capital de um estado riquíssimo que cresce a cada ano por mais de uma dezena de anos batendo os números de crescimento econômico do Brasil!